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Absonar

 

É sob a égide de tempos fragmentados, de dias voláteis, de fluxos algo sem controle que a paulista Sueli Espicalquis finca sua obra visual. Por meio de uma produção multifacetada, mas que tem especial apreço pela pintura, com espaço também para o desenho, o vídeo, a fotografia e o tridimensional, a artista vai ganhando terreno com uma poética própria, uma espécie de topologia de composições e planos sobrepostos, de conteúdos de cor ora mais amenos ora mais vigorosos, de ruídos desestabilizadores e contínuos.

Para refletir sobre a era em que vive e o seu entorno, Espicalquis, matemática de formação, transitou por alguns pontos comuns na formação de um jovem artista (no caso, uma nova pintora), como o apreço pelas superfícies matéricas, a enfatizar a fisicalidade da cor, e a escolha de arranjos mais orgânicos. E, por meio de outros suportes, também optou algumas vezes por peças mais relacionais, a enfatizar a participação do (ex- ) observador.

 

Contudo, a paulista parece ter enveredado com mais força e consistência por um campo expandido do pictórico. Abandonou a sedução da diversidade dos materiais, sobressalente na fatura das telas e na composição de figuras de contornos menos determinados, e reforçou o que Paulo Herkenhoff já intitulou de “acontecimentos pictóricos”1. Pois a qualidade dos trabalhos de Espicalquis vem mais das relações agora arduamente construídas pela artista, num labor elogiável e de temporalidade mais dilatada do que seus experimentos iniciais pelo suporte, que hoje, com um pouco mais de análise, se ligam a obras de sua autoria em outras linguagens, como seu vídeo Figuras Sonoras, em que uma superfície rugosa vibra e ganha desenhos espontâneos, de acordo com a sonoridade produzida pelo arco de um violino. Há chiados e fricções, e são bem-vindos.

 

“(…) A sociedade em rede permitiu flexibilizar a visão futurista articulando o espaço dos fluxos e o espaço dos lugares exclusivamente em benefício dos primeiros. Como qualificar essa nova urbanidade? O urbanismo contemporâneo é duplo, ambíguo, uma vez que ele privatiza e fragmenta, sobretudo porque interconecta lugares privilegiados. Enquanto as cidades clássicas, por mais idealizadas que sejam, são polos autônomos e dão forma a uma cultura de limites e de proximidade, o urbanismo de rede interconecta os espaços próprios a rede em detrimento dos outros. A proximidade pode ser ignorada quando os limites urbanos caem. O fora e o dentro são então radicalmente separados (…)2, alerta Olivier Mongin. Essa descrição do pós-industrial em vigência pode retratar, com enorme e curiosa precisão, o ambiente no qual se insere a poética de Espicalquis.

 

Por meio tanto de grandes como de menores telas, a artista vai configurando seus planos de cor que buscam a amplidão _ destacam-se os tons de verde e de azul _ e, no entanto, acabam atingidos e solapados por outros planos, por vezes de colorido mais artificial, por vezes de cores básicas. E como se uma jornada plástico-visual almejasse um dado mais libertário, mas fosse sufocada por algo que predominará e é originário de uma força maior, algo não compreensível e com características nada suaves, que pendem para o bruto. Mesmo que, a priori, tudo pareça harmônico. E que também, numa mirada leve e inicial por tais quadros, aparentemente surjam cenas aéreas de campos bucólicos e plácidos.

Assim, a obra de Sueli Espicalquis nos lança mais em relações que atestam o conflito e a intranquilidade, distanciando-nos da assepsia virtual que aparentemente nos embebe. Sua planaridade de cores tem sim mais a ver com a corrosão física e de barulho cortante que a brasa de cigarro produzira sobre o papel, em série de desenhos anteriores que tracejavam, num jogo de arrojo e de hesitação, uma figura humana a nunca se completar. Tais construções podem ter como habitat os planos superpostos realizados pela artista mais recentemente, num tráfego de dados-trajetos que mais se dirige a um bug concreto e nada longínquo do que a uma suposta exatidão funcional.

Mario Gioia, outubro de 2014

1. HERKENHOFF, Paulo. Prêmio CNI Sesi Marcantonio Vilaça Artes Plásticas 2006/2008. Sesi, Brasília, 2009, p. 31

2. MONGIN, Olivier. A Condição Urbana. São Paulo, Estação Liberdade, 2009, p. 132